ReiKai¹
Chegava em casa sempre à mesma hora, mas desta vez o cansaço era demasiado. Sentou-se numa cadeira e recostou a cabeça na parede com um suspiro. O ponteiro do relógio quebrava o silêncio com um ruído compassado e o vento batia suavemente na janela.
Não estava mais lá. O tic-tac do relógio fora substituído por um gotejar palpitante. Aquele lugar lhe era familiar. Sentia a água cristalina penetrar nos sapatos, molhar as meias e escorregar por entre os dedos subindo até o tornozelo.
A escuridão pairava como um manto gelado. Sentiu um calafrio estranho e quando virou, deparou-se com uma figura muito semelhante a si próprio. Eram altos, esguios e loiros, mas não eram o mesmo. Suas feições diferenciavam-se pelos sentimentos que levavam dentro de seus corações.
Aproximando-se cada vez mais e, surpreendido por encontrar alguém no meio daqueles corredores membranosos, reconheceu, finalmente, o outro que também caminhava em sua direção.
—Bem, acho que desta vez finalmente te encontrei.
—(sons estranhos)... Você não é o que eu imaginava.
—Cala boca e ouve! Faz anos que você se escondeu aí dentro, no escuro, remoendo o passado, mas eu te digo uma coisa: Eu te expulso!
—(sons mais estranhos ainda) Será que você consegue? Concordo que esse espaço é pequeno demais para os dois.
(uma leve neblina se levanta enquanto as duas figuras se fitam no vazio).
Tentando alcançar seu oponente percebe assim o vidro que os separa. Não há como transpassar o vidro, é um espelho.
Sobressaltou-se com o barulho repentino da janela aberta, percebeu naquele momento a posição desconfortável em que se encontrava. Levantou da cadeira com um ar preguiçoso e, se dirigiu ao quarto, tirou os sapatos e as meias encharcadas.
Deitou na cama; voltou a dormir.
1. ReiKai – do japonês. Mundo espiritual.
Nenhum comentário:
Postar um comentário