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sexta-feira, setembro 09, 2011

Texto de Geografia (Atividade dada em sala de aula)

A ascensão da China

"A educação é central no êxito da China. Três de suas universidades já estão entre as
100 melhores do mundo. O plano é incluir duas entre as vinte mais prestigiadas”.

A China é o maior fenômeno econômico da história. Nenhum outro país cresceu
por trinta anos seguidos (1980-2010), à taxa média de 12% ao ano. Em 2010, ela se
tornou a segunda maior economia do mundo. Ainda nesta década poderá ser a primeira.

Por aqui, esse êxito é explicado por teses simplistas. Decorreria de taxas de
câmbio valorizadas, de políticas industriais ou da ação de empresas estatais. Na
verdade, o sucesso chinês tem raízes mais amplas, profundas e provavelmente
duradouras.

A China despertou de um longo declínio, que começou por volta do século XV,
quando Portugal e Espanha se lançavam na aventura ultramarina. Na época, ela
representava cerca da metade da economia mundial. Em 1800, em plena Revolução
Industrial inglesa, a China ainda respondia por 33% da produção mundial de
manufaturados (28% na Europa e apenas 0,8% nos Estados Unidos).

A China evoluiu da tribo para o estado organizado muito antes do Ocidente.
Francis Fukuyama diz que o estado chinês foi fundado por Ying Zheng (259-210 a.C.).

Possuía um exército que fazia cumprir a lei e uma burocracia profissional que
arrecadava tributos. Pesos e medidas uniformes eram obrigatórios. O setor público
construía a infraestrutura de estradas, canais e sistemas de irrigação.

Nos séculos XIX e XX, a China foi ocupada por potências estrangeiras. No
período comunista, a expansão da educação se interrompeu e muitas universidades
foram fechadas. Políticas desastradas de Mao, como a de produzir aço a qualquer custo,
e a insana Revolução Cultural aceleraram o declínio.

A reversão começou em 1978 com Deng Xiaoping, que restabeleceu a
prioridade à educação, acolheu o investimento estrangeiro, privatizou empresas estatais
e permitiu ampla participação do setor privado na economia. No ensino superior, foram
adotados os modelos britânico e americano.

A partir de 1997, o ensino experimentou forte internacionalização. Em 2007, o
relacionamento educacional alcançava 188 países e regiões. Em 2008, 180 000 chineses
estudavam fora (39 000 em 2000). No período, 420 000 frequentaram cursos superiores
no exterior. As reformas econômicas aumentaram o retorno propiciado pela educação.

A educação é central no êxito da China. Três de suas universidades já estão entre
as 100 melhores do mundo. O plano é incluir duas delas entre as vinte mais prestigiadas.

Em 2010, alunos do ensino médio da província de Xangai obtiveram o primeiro lugar
nas provas de leitura, matemática e ciência do Pisa.

A ciência e a tecnologia são parte do processo. Neste ano, a China investirá em
pesquisa e desenvolvimento 154 bilhões de dólares. Ultrapassará o Japão (144 bilhões de dólares) e ficará atrás apenas dos Estados Unidos (405 bilhões de dólares). Em 2010,
conforme mostrou Cláudio Frischtak, a China solicitou 12 300 patentes internacionais,
25 vezes mais do que o Brasil (era quatro vezes em 2000). Em 2008, enviou um
astronauta ao espaço e planeja colocar outro na Lua em vinte anos.

Na política externa, os diplomatas chineses concluíram que o país não podia
(nem deveria) desafiar tão cedo a dominância global dos Estados Unidos. Ao contrário,
a estratégia foi a de cooperação com os americanos, a melhor fonte de tecnologia,
investimento e demanda por seus produtos. Buscava-se a "ascensão pacífica". Algo
muito diferente do antiamericanismo da diplomacia petista.

A China escolheu o modelo de desenvolvimento fundado na exposição de suas
empresas à competição internacional, que já havia dado certo no Japão, na Coreia do
Sul e em Taiwan. Era o oposto da estratégia de economia fechada do Brasil. O comércio
exterior saltou de 18,8% em 2000 para 56,7% do PIB em 2010 (23,1% no Brasil).

O êxito chinês combina múltiplos fatores: educação, ciência, tecnologia,
economia aberta e orientada pelo mercado, elevados investimentos em infraestrutura,
empreendedorismo e pragmatismo diplomático, para citar os mais relevantes.

Lula afirmou que o século XXI seria o do Brasil. Está mais para ser o da China,
salvo os riscos de uma futura abertura democrática. O Brasil pode ganhar ou perder com
a ascensão da China. Depende de como enfrentemos as deficiências da educação e
retomemos as reformas, interrompidas nos últimos oito anos.

Maílson da Nóbrega é economista
Revista Veja - Maílson da Nóbrega - A ascensão da China
PUBLICAÇÃO: 15/06/2011
EDIÇÃO: 2221
PÁG.: 22

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